29 de mar. de 2017

Cronicas 15.1: Contos do Menestrel

Uma crônica que não deve ser lembrada - Parte 1
Por: Nilo






Então vamos lá… o que vou contar a vocês, é de suma importância que fique aqui… Eu sei, eu sei, não é do hábito de um andarilho como eu, poupar grandes histórias, mas esta, é importante que seja mantida em sigilo; vocês devem se recordar de que durante algumas semanas… okay, meses, eu estive isolado dos bares, festas e bebedeiras a que geralmente minhas canções são requisitadas. Isto, porque precisei reforçar meu leque de ideias, histórias e glória. Nova Sescheron, sempre me pareceu muito convidativa apesar da brisa sinistra e cheia de sussurros, e neste episódio que lhes conto, ela foi bastante generosa.

Encontrei um ferreiro habilidoso e bastante destemido em se tratando de criar aparatos nunca antes vistos, e lhe desafiar a um feito tão rebuscado e harmonioso me pareceu recompensador para ambos os bolsos. Sven, era seu nome… pelo menos foi o que eu pude entender, anões tem uma língua afiada na hora de xingar, mas apesar de se orgulharem de seus nomes, tem sérios problemas em pronunciá-los na língua comum… de qualquer maneira: fiz a oferta, colocando em suas mãos minha besta mágica, um punhado de moedas e meus serviços e ele aceitou de bom grado a manufatura do que poderia ser minha mais bela ‘esposa’. Em pelo menos um mês de trabalho, tivemos oportunidade em meio a golpes de martelo numa bigorna e o calor de uma fornalha, pra trocar algumas histórias, mas o que mais me intrigava era a história sobre o ferimento em seu braço que já havia se recusado algumas vezes a contar.

Numa tarde chuvosa, sem muito mais o que acrescentar sobre sua vida, ele se convenceu a contar o que antes relutava em compartilhar (sim, eu sei ser bastante convincente com alguns bons versos).

- Garoto… eu não sou fã de música, e certamente não sei cantar muitas, mas nunca irei me esquecer do dia em que ganhei minha aptidão de sentir metais e pedras preciosas como se fossem parte de mim. Minha fortuna, se deu ao destino desafortunado de um de meus melhores amigos. Bardos são criaturas estranhas… curiosas demais, ousadas demais e sem nenhum bom gosto pra escolher suas brigas! Eu concordei em contar isto a você, para que possa zelar este segredo em meu lugar… um pobre anão caindo aos pedaços em sua ferraria não tem muito crédito com aventureiros jovens e inconsequentes, mas você certamente há de fazer mais pela alma de meu velho companheiro do que eu. - disse o pobre e meio ensurdecido mestre ferreiro.

- Muito bem… me surpreenda, mestre Sven.

- Criaturas diabólicas invadem este mundo a cada minuto, e certamente deixam seus frutos aqui, sejam eles filhos bastardos de uma condessa ou uma trompa que poderia assustar poderosos Ogros Magos. Existe um mito, que me provou ser bastante verdadeiro, sobre um artefato poderoso e misterioso que não foi deixado em nosso plano, ao acaso, e que está longe de ser bem manipulado por mãos mortais como as nossas.

- Uma arma?

- Haha! Quem dera fosse… dessa maneira, poderia ser escondida no fundo do oceano ou no magma enfurecido de um vulcão! Histórias… memórias, são poderosas demais, para serem esquecidas… quando bem espalhadas é claro! Não me olhe com esta cara, eu sei o que estou dizendo! Não pode simplesmente cortar a cabeça de todos que acreditam que a filha do rei, não é realmente filha dele, os chifres da garota contam  por si só que ela é fruto de algo que não um par de pernas suculentas e…

Eu tossi rejeitando a ideia de um anão excitado na minha frente - …é suficiente, eu entendi seu ponto! Mas o que era o artefato?!
- Uma música, filho.

- Uma música? - Incrédulo

- Sim! A mais bela melodia que eu ouvi na minha vida!

- Espere um minuto… está me dizendo que o que matou o seu amigo, foi uma música?! Sven, eu conheci ótimos Bardos… de verdade, eu até aprendi bastante com eles, mas não sei de nenhuma música que pudesse… matar pessoas.

- Foi você quem pediu pra ouvir a história e agora se recusa a acreditar?! Garoto… eu tenho idade suficiente pra viver 10 vidas suas. Acha mesmo que a essa altura dela, eu mentiria pra impressionar um magrelo de cabelos femininos que me contratou… por nenhuma moeda além do combinado?

- Certo… eu estou intrigado pra saber onde isso parará – ria, mas convencido da intenção do velho de me impressionar.

- A versão que escutei dela… era magnífica, e foi tocada em uma gaita de foles. – neste momento, ele levantou, maravilhado e aterrorizado pela lembrança. - E fora meu amigo, que tocou. Entenda, eu não faço ideia do que realmente aconteceu naquele dia, mas todos que estavam lá, de certa forma, foram afetados pela música. Eu perdi parte de minha audição mas ganhei um talento sobrenatural de sentir metais, pedras e saber manipulá-los, foi daí a ideia de montar uma ferraria, além do mais, o que eu poderia fazer com um braço deformado e pernas que mal se aguentavam de pé? Todos os outros foram afetados de maneiras diferentes e isso nos deu a oportunidade de criar negócios promissores e formar uma companhia de comércio e serviços de modo a nos aproveitar do que no foi dado, e também retirado.

- Então agora, está atestando que existem outros indivíduos que sabem que essa música é real, de alguma maneira…

- Posso ignorar o deboche nas suas palavras, mas se procurá-los, terá evidências de que esta história é verdadeira.

- E qual minha responsabilidade quanto a isso?

- Como eu disse antes – ele andava pela sala, atrás de uma caneca pra tomar um pouco mais de seu… destilado! - As pessoas que já ouviram essa história, seja de mim, ou de meus compatriotas, se sentiam compelidas a buscar por mais informações sobre… não por curiosidade nata, somente, mas de certa forma… tudo que envolve o que aconteceu naquela noite é sedutor demais pra ser deixado de lado.

- Acho que meus amigos não se interessariam por uma música tão profana quanto esta, e pra falar a verdade, desconfio que ela seja do meu interesse também.

- Eu espero que sim, garoto.

Naquela noite, eu fui dormir tarde, depois de ter apreciado um pouco a chuva durante todo o dia, nada muito diferente de dias com este clima, eu adoro chuva. Mas, estranhamente, eu sonhei com a história do velho Sven, e enquanto dormia, sentia que o que visualizava no sonho, era realmente real. Imagens de demônios saqueando cidades, estuprando mulheres e crianças, comendo carne humana fresca. Nada muito diferente do que presenciamos ultimamente. Quando acordei, devido ao sonho, fui buscar algumas informações nas melhores bibliotecas do mundo: as ruas.

Percebi que uma história como essa, não era tão divulgada assim em meio ás pessoas ordinárias com que esbarramos todos os dias, e precisei cavar mais fundo quanto a isso. Alta corte? Teatros itinerantes? Ladrões de mantos brancos? Toda e qualquer fonte de informação era abrangente e tinha poucas chances de me dar o que buscava. Me ocorreu então, buscar nos amigos do meu contratado, detalhes a mais da história. Demorei semanas até encontrar todos e ainda estou devendo favores a alguns, mas a história foi contada a mim outras 6 vezes e todas elas continham os mesmos detalhes esquisitos de até surreais: a música, foi dito ser escrita por algo diabólico e sem pretensão de ser esquecido, todos que ouviam, eram acometidos por destinos terríveis, e os poucos que sobreviveram, obtiveram traços não humanos que lhes permitiam seguir rumos bastante reclusos em suas vidas agora miseráveis. Uma das pessoas que me contara a história, teria sido um pouco mais generosa nos detalhes e me deu pistas de uma cidade que pudesse conter informações adicionais sobre a tal música. Estaria eu viajando em busca de um provável mito, fruto do devaneio de 7 anões carcomidos e talvez maquiavélicos demais de manter uma mentira tão bem trabalhada? Mas é óbvio que sim! Desvendar mistérios e ter histórias pra contar é a melhor parte de minha vida!

Quatro luas diferentes passaram sobre o céu depois que deixei Nova Sescheron, eu vaguei por um país tão quente quanto as planícies Demacianas… sei que não conhecem Demácia, mas é como eu vivo dizendo, eu ando muito. Continuando. Cheguei em Parthevia, com somente Beatrice nas costas, algumas moedas sufcientes pra me manter alimentado e bem saciado de vinho e mulheres e muitos mistérios a descobrir. Noites em bares mouros são sempre muito agitadas e histórias de tesouros são sempre recorrentes. Alguns, me soaram interessantes o suficiente pra fazer alguma fortuna antes de voltar ou manter meu dinheiro no bolso sem precisar gastar tanto, de qualquer maneira… um me chamou a atenção pela subjetividade das palavras de quem falava sobre. “A maior riqueza que um homem pode adquirir em sua vida, é ter histórias maravilhosas pra contar, sejam elas com finais felizes ou não. A palavra é um tesouro sem valor, e esta gruta sabe muito bem como recompensar aqueles que ousem adentrar em suas areias preciosas.”

Tobias certamente um dia desejará que eu lhe leve em uma caverna onde o solo é feito de partículas de ouro, mas fica aqui meu aviso: o que protege a caverna, não pode ser mensurado com somente 3 viagens que fiz até ela. O que encontrei no caminho, também não foi nada agradável, e minha única recompensa foram alguns amigos, histórias novas e uma pista fria do paradeiro da tal música demoníaca. Adiante.

Numa tarde, vasculhando a biblioteca restrita de Parthevia, uma das sacerdotisas, Xerazade, disse que pra concluir um de seus contos… ela precisou vasculhar mitos e conexões do deserto para ter boas referências de modo a enriquecer sua obra literária. De certa maneira, achei que pudesse me aproveitar do conhecimento lírico de uma habitante da cidade pra poder explorar melhor os caminhos que me levariam até a caverna que poderia ter algum vestígio do artefato que buscava… e convenhamos, ela é uma gracinha com aquela pele morena… Enfim, continuando. Mais do que uma ‘navegadora’ e estudiosa, eu precisava de alguém com total condição de enfrentar os perigos do deserto conosco, e requisitar os serviços de uma mercenária com dotes para magia, me pareceu bastante conveniente, eis que Morgiana concordou em prestar seus serviços desde que houvesse uma compensação por eles. A comitiva parecia pronta para partir quando um Espadachim cego (pasmem!) nos perguntou se poderíamos permitir sua ida conosco até a caverna em busca de sua herança de família (???). Eu devo confessar que pareceu bastante arriscado andar com um cego empunhando uma espada, mas Kassim pareceu muito competente quando fomos cercados por um bando de goblins das areias. Precisavam ver, foi quase tão impressionante quanto o Ragnar rasgando um Troll em chamas! Quando tínhamos feito 1/3 do percurso, uma tempestade de areia nos obrigou a cortar caminho por túneis subterrâneos bastante apertados e que escondiam formigas gigantes. Eu não posso contar exatamente como fizemos pra desviar o curso delas em relação a nossas cabeças, mas pra resumir bem, envolve um isqueiro, roupas de baixo, e uma rajada gélida em um cego… então…

Passada a tempestade, seguimos viagem encontrando diversos acampamentos de Kobolds que “amigavelmente” exigiram pedágio para permitir nossa passagem, então a batalha nos consumiu a energia que restava durante aquele dia, mas foi memorável levar agonia aqueles baixinhos irritadiços. No deserto ao sul Parthevia exibe um esplendor de areias decoradas com diversas ruínas e histórias antigas, amigos. Presenciamos a história viva quando cruzamos caminho com um gênio que nada mais queria que ouvintes para algumas de suas histórias. O pobre coitado devia estar sozinho a muito tempo… Kassim prometeu companhia a ele sempre que pudesse viajar, mas o gênio não ficou tão interessado quanto a isso, somente pediu para acompanhar nossa jornada por algum tempo enquanto decidia se retornaria a seu plano. Nossa primeira grande parada aconteceu em Sindaria, uma cidade mercantil tão impressionante que faria Shambala, sem ofensas Tobias, parecer um mercado de pulgas. Fiquei bastante tentado a gastar algum dinheiro com os serviços daquelas grandes construções e maravilhas arquitetônicas. A noite, discutíamos os caminhos que seguiríamos para chegar a nosso tesouro.

- Não vejo o que exatamente precisamos discutir, estamos a só algumas horas de viagem da gruta, consigo sentir! - Morgiana bradava

- Calma lá, moça… os caminhos daqui a frente são tortuosos e escondem perigos que alguém com seu vigor não suportaria. - Xerazade parecia preocupada com o que havia lido em seus escritos tão preciosos.

- Podemos com qualquer perigo a frente, minha espada nunca me deixou na mão, não será agora que dependerei da sorte ou de um plano cauteloso. - Kassim dizia, sem necessariamente direcionar o discurso

- Adoraria escrever sobre suas façanhas, hábil espadachim, adoraria mesmo! Aliás, acho que farei uma música disso. - Beatrice já estava em minhas mãos quando pensei no quanto aqueles 3 eram magníficos.

- De qualquer maneira, é importante estabelecer uma rota principal e alternativas em caso de lidarmos com algo que possa ser o fim da nossa expedição. Não temo pela minha vida, mas há manuscritos dentro daquelas paredes que precisam ser mostrados ao mundo.

- Xerazade, você sabe bem que há ouro naquelas areias, certo? Aliás, as areias, são feitas de ouro! OURO! Eu daria todo meu conhecimento sobre magia, e até o conhecimento do mundo pra ter acesso aquilo… poderia comprar até Magos pra me servir pelo resto da minha vida.

- Existem riquezas maiores do que ouro no mundo, Morgiana. Eu lhe pergunto, quanto você acha que uma vida podendo apreciar as maravilhas visuais do mundo, me custaria?

- O que me leva a seguinte pergunta: como você perdeu sua visão, Kassim?

- Talvez outro dia, Nathan. Quando tivermos oportunidade de ouvir suas histórias do outro lado do continente, quem sabe?

- É, quem sabe?

Fomos dormir depois de decidir que a estrada principal seria alvo de muitos ataques de bandos de ladrões das dunas e da cidade. Sabemos bem que grandes centros comerciais atraem todo tipo de indivíduos e não gostaríamos de lidar com eles antes mesmo de enfrentar mais um deserto. Ousamos uma passagem pelo Oásis do Imperador, algo temido pelos nativos de Sindaria por dar acesso às terras de uma época, ou até de plano diferente. O perigo desta vez se deu por termos que evitar uma seita das areias voltadas a abrir portais trazendo criaturas das quais eu nunca tinha ouvido falar antes. Graças a sorte de termos Xerazade, pudemos sair de lá sem muito trabalho e com alguns Magos bastante frustrados de lidar com uma sacerdotisa poderosa. Nosso objetivo estava a frente, guardado por gárgulas que foram comprados com a resolução de algumas charadas.

Chegando, as ruínas de uma cidade antiga, a caverna se encontrava em o que deveria ser a praça central. A descida requeria uma “escalada” de quase 100 metros de profundidade, e as paredes eram bastante escorregadias. Muita umidade, sussurros por entre os corredores da caverna, morcegos por todas as paredes… mas era muito verdade, as areias de dentro da caverna eram pó de ouro, escrituras dentro de estantes na própria caverna faziam referência a uma manopla que podiam transformar qualquer coisa que tocasse em ouro, pensando bem… muito do que havia na caverna não parecia fazer muito sentido com o local que estávamos… uma caverna em meio a uma cidade destruída a muito tempo, bastante úmida e repleta de escrituras e uma arquitetura nada parecida com  o que havia em Parthevia… era como se não estivéssemos lá, de fato… ou como se lá, não fosse lá, entendem? O gênio que encontramos antes, parecia satisfeito em ser deixado ali, naquelas paredes, disse que era como se soasse familiar para ele. Acampamos e ele pôde contar algumas de suas histórias.

Neste fim de mundo, eu encontrei uma pista, bastante fria, do que poderia ser o paradeiro da música, também descobri que a música em questão era chamada de Sonata das Trevas, por quem quer que seja que descrevia a obra. Devido ao contrato assinado com Morgiana, seguimos explorando a caverna por alguns dias antes de voltarmos a Parthevia. Antes de voltar, fiquei sabendo que ela abriu uma escola de magia em uma cidade pra além do mar de Agnes, numa cidade chamada Magnostad, algo assim. O espadachim encontrou sua herança de família, um colar que apesar de não lhe entregar sua visão de volta, fazia com que enxergasse mais do que necessário para voltar a glória de suas aventuras longe das terras de sua família. Xerazade concluiu mais um de seus contos… não faz muito sentido ela ter tantas histórias contadas em um só livro, mas ela disse que chamaria de algo que ficaria marcado na “história das grandes histórias”. Perdão? Ah, claro, o desfecho da música! Eu poderia contar isso em outra noite? Estar morto, apesar do que dizem, não é  nada relaxante e eu preciso me recuperar de hematomas que nem lembro de como adquiri, mas prometo continuar contando a história, desde que o Bill Barton aprenda a ler!

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