18 de dez. de 2016

Crônicas 14: Lucion e Leah

Se esgueirar naquele acampamento estava cada vez mais difícil, aqueles monstros não se pareciam com outros da mesma espécie, eram maiores, mais fortes, mais violentos. Havia qualquer coisa sombria que os fortalecia e ao mesmo tempo os controlava.

O sol ainda não ameaçava nascer, mas o circulo interno do acampamento ainda era muito bem patrulhado, e eles estavam em sérios apuros.




Foi então que ela apareceu, uma garota, no meio daquele acampamento de monstros, na esquina de um barracão, os heróis só escutaram sua voz, e viram uma fraca silhueta de seu corpo encostado na parede de madeira.

-"Eles já sabem que vocês estão aqui!" - disse sussurrando na escuridão.

-"Quem é você?" - Perguntou Haien, talvez um pouco mais alto do que devia, ou pelo menos foi o que pensou...


-"Alguém que quer sair daqui viva, assim como vocês ao que parece!" disse falando um pouco mais alto que um sussurro, não parecia ter paciência para discutir a questão naquele momento.

Então explodiram orcs e goblins de todos os lados, ouviram o trovejar dos passos de pelo menos mais um ou dois ogros. Mas agora havia mais alguma coisa, outras criaturas andavam nas sombras, e estavam vindo rápido.

-"ME SIGAM!" - Gritou finalmente a garota, disparando uma flecha contra algo que não deveria estar lá... mas estava!

Então eles correram, desesperadamente seguindo a garota entre as tendas e os barracões até o canteiro de construção do grande portal, ali haviam outros guerreiros, eles não conseguiram contar enquanto passavam correndo, quando todos passaram a garota parou, e mandou que eles prosseguissem....

Nathan conseguiu olhar para o rosto dela, mesmo que de relance, sua expressão era doce, porem triste, havia algo mais que ela não estava contando...

"VÃO PARA A TORRE E ACABEM COM ISSO, EU VOU SEGURA-LOS AQUI!!!"

Todos congelaram por um instante, como aquela garota, com seu grupo poderia lutar contra um exercito? haviam vinte ou trinta inimigos para cada um deles, aquilo seria um massacre...


Mas ela não exitou nem um segundo, e seu tom não permitia discussão, a o feitiço que ela conjurou a seguir, mostrou o quão sério ela estava falando, a enorme explosão não apenas matou vários inimigos, como criou uma coluna de fogo que os forçou a desacelerar sua investida.

Eles continuaram correndo, e entraram na torre que centrava o acampamento, cada passo dentro da enorme construção parecia diminuir mais um grau na temperatura ambiente, o acampamento ficava no meio das montanhas e o chão estava cheio de neve, mas em um ambiente fechado eles não esperavam aquele clima, havia algum encantamento poderoso forçando aquele frio, e pela velocidade com a qual a temperatura caía, eles estavam muito próximos da fonte.

Depois de vários andares de escada, finalmente passaram por um arco largo, e entraram em uma sala escura, onde o chão estava cristalizado e escorregadio, nela, havia somente um homem, vestindo uma armadura, e usando um capuz que ocultava seu rosto, ele estava sentado e agrilhoado no chão, suas mãos e pés presos por pesadas correntes de aço negro...

A temperatura dentro da sala estava ficando insuportavelmente baixa, quando o homem nos grilhões falou, sem se voltar para o grupo, sua voz era grave, sombria e espectral, como o lamento de um espirito condenado:

-"Voltem de onde vieram, não cometam o mesmo erro que eu, para vocês ainda há esperança..."

-"Quem é você?" - Perguntou Nathan, sem obter resposta...

-"Sinto muito, mas não vamos recuar!" - Disse Elrond...

-"Então este lugar será seu tumulo..."

Desafiando o impossível, a temperatura na sala baixou ainda mais, estava respirar naquele local estava se tornando um desafio por si, os pesados grilhões cobertos de geada branca estalaram e se partiram como se fossem de vidro, e ele se levantou.


Era um oponente formidável e mortífero, seus ataques podiam ser sentidos como uma tempestade furiosa se aproximando, sua lamina congelava e necrosava o ferimento ao toque...

Mas o pior era sua aura, ao toca-lo, ou mesmo golpeá-lo, laminas comuns se congelavam e estilhaçavam, mesmo laminas magicas quase não podiam o feri-lo e a mão que brandisse o golpe podia ser perdida para o frio extremo.

A armadura era espessa e encantada e para alguém tão grande e pesado ele era rápido e preciso demais, dessa forma a batalha quase foi perdida, não uma nem duas vezes, Haiem, Nathan, Ragnar, Tobias e Elrond lutavam contra ele, e mesmo assim, sozinho ele dominava a sala.

Com um enorme sacrifício e muito esforço, os heróis venceram o ser misterioso, mas aquele não era o fim da batalha, então usaram todas as poções e encantamentos que tinham, se curaram como puderam, se muniram da força que conseguiram juntar, e prosseguiram para o ultimo andar da torre.


Havia um vasto terraço, com uma cobertura de tendas e vários estandartes de guerra o chão estava coberto por um suntuoso tapete vermelho brocado de ouro, havia muita prata empilhada nos cantos, e também ouro e platina aqui e ali, grandes joias com pedras preciosas, e corpos, corpos aos montes, espalhados em toda parte, sentado em um trono de gelo rodeado por uma pilha enorme de crânios humanos, estava Lucion, filho de Mephisto, o demônio os paralisou a todos, apenas com o olhar, e se apresentou formalmente.

-"Normalmente eu os devoraria ainda vivos, mas vocês parecem espécimes muito raros... minha prima mandou vocês?" - Eles não conseguiam responder, a paralisia era muito forte, mas interroga-los parecia divertir o monstro.

Ele encontrou o medalhão de Elrond, que naquele momento brilhava como um farol, o arrancou do pescoço do ranger, examinou por um breve momento e o esmagou com a mão asquerosa.

-"Andaram rastreando energia vil? porque não me perguntaram? estão mexendo com o que não conhecem, deveriam vir direto a fonte...."


Nesse momento, a paralisia sumiu, tão rápido como havia aparecido, alguém tinha interferido no poder do monstro... Nathan olhou para traz por um instante, e viu a garota, mas em um lampejo, menos de meio segundo, talvez ele só tivesse imaginado, mas ela não era mais apenas uma garota, seus cabelos antes castanhos claros, agora brilhavam em um tom muito ruivo, chifres cresciam entre eles e sua aparência doce e triste tinha um quê extremamente assustador...

Ela abriu os olhos e gritou: -"ATAQUEM AGORA!!!" - mas não era preciso, assim que eles foram libertos se engajaram em combate.

Lucion foi o oponente mais poderoso, cruel e resistente que eles enfrentaram o terror de lutar contra um demônio de verdade fazia Lord Vaekar Targerien parecer uma criança brincando com energia vil, mas como todos os outros, ele acabou sendo sobrepujado.

Eles não sabiam se aquilo era sorte, força, ou intervenção divina, mas eles tinham vencido.

- "Meus soldados conseguiram resgatar seus amigos mas os goblinóides estão invadindo a torre..." - disse a garota, um tom suave tinha voltado a sua voz, e a sua aparência era tão doce quanto antes.

-"Seus soldados?" - perguntou Tobias, enquanto recolhia tesouros pela sala.

-"Sim. eles seguem minhas ordens. Vocês tem como sair daqui?"

-"Poderíamos abrir caminho lutando!" - Sugeriu Ragnar...

-"Tenho uma ideia melhor, é um dos últimos, mas não temos muita escolha." - Disse a garota, tirando um pergaminho da bolsa.

O pergaminho se desfez em fumaça azul, rodopiou pelo ar e formou um portal, do outro lado desse portal havia uma praça. Quando saíram do outro lado, Bill Barton, Brandon Snow, e os soldados da garota já estavam todos na praça, o sol estava nascendo e dava para sentir o cheiro de pão fresquinho sendo assado.

A praça ficava aos pés de um grande castelo, o chão pavimentado dividia espaço com vastos jardins, e pinheiros de diversos tons a cercavam lado a lado com gigantescas estatuas de mármore. Uma delas, incrivelmente, era da garota que tinham acabado de conhecer.

- "Por todos os Deuses! Quem é você?" - Indagou Haiem, pensando alto, olhando para a garota de pedra de 15 metros de altura, ladeada por outros monumentos que pareciam grandes guerreiros, sábios magos e um simpático velho barbudo e encurvado carregando uma grande bolsa de livros, que tinha sido esculpido com um sorriso amplo e acolhedor, como se convidasse as pessoas a pararem para ouvir suas histórias.

- "Pode me chamar de Leah." - Ela respondeu... e por um instante, Nathan achou ter visto o esboço de um sorriso, pela primeira vez, no rosto doce e triste da garota.

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